No dia 8 de setembro, a Fundação Oriente, em Díli, acolheu o ensaio aberto de "Isin Makees", novo espetáculo da encenadora e atriz Zia Soares. A apresentação teve entrada livre e foi seguida de uma conversa entre os artistas e o público. Com ela terminou a residência artística que a criadora e o músico Xullaji realizaram em Timor-Leste, com o apoio da Fundação Oriente, entre o final de agosto e meados de setembro.
"Isin Makees", expressão tétum que significa “arrepios”, parte de uma investigação sobre a Guerra de Laleia (1878–1881). Durante esse conflito, as forças coloniais portuguesas reprimiram violentamente as insurreições locais na costa norte de Timor. Um número impreciso de timorenses foi decapitado e 35 crânios foram levados para Portugal. Destes, 29 permanecem hoje na Universidade de Coimbra. O espetáculo cruza teatro, música, cinema expandido, dança e artes visuais. Reflete sobre a violência colonial, o desterramento forçado, os insepultos, a restituição e a reparação, e explora a performance como espaço poroso entre mortos e vivos, entre memória, pertença e apagamento. Em cena, a construção de uma uma lulik (casa sagrada) instaura um espaço de cuidado e de mediação entre vivos e antepassados.
O ensaio aberto resultou de uma oficina de artes performativas realizada na Fundação Oriente de 3 a 8 de setembro. Orientada por Zia Soares e Xullaji, a oficina destinou-se a artistas timorenses das artes performativas, visuais, audiovisuais e musicais. Corpo, voz, som, palavra, canto, movimento, língua e oralidade foram trabalhados como matérias de criação e como formas de conhecimento e transmissão. As propostas dos orientadores cruzaram-se com as referências, memórias e práticas dos participantes, num processo construído coletivamente.
Em palco, textos corais, composições inspiradas em cânticos tradicionais e coreografias que revisitam as linhas das colunas militares esboçaram um primeiro gesto de criação. Esse gesto gira em torno da memória, dos corpos ainda por enterrar e daquilo que se continua a guardar, mesmo quando o arquivo teima em silenciar.
Participaram os artistas Flash Guterres, Ina Cardoso, Isabel da Costa Fernandes, Jania Alves, Maria Lena Caminha, Nona Nokorau, Ratna Gusmão, Simão Maudeni e Tricha Sousa.
Filha de pai timorense e mãe angolana, Zia Soares é diretora artística do Teatro GRIOT desde 2010. Foi a primeira mulher negra a assumir a direção artística de uma companhia de teatro em Portugal. Para a criadora, a participação de artistas e instituições timorenses é uma dimensão essencial de um projeto que convoca diretamente a história, a memória e as práticas culturais de Timor-Leste. Xullaji é músico, poeta, ator e designer de som e assina a música e o desenho de som do espetáculo. O elenco integra os artistas timorenses Adelina Lece-Bere e Maria Madeira, primeira artista a representar Timor-Leste na Bienal de Veneza (2024), criaou obras que integram a cenografia. Está ainda prevista a integração de dois artistas timorenses que participaram nas atividades realizadas em Díli.
"Isin Makees" é uma produção sowing_arts em coprodução com o Teatro Nacional D. Maria II. Estreia em Lisboa, no Teatro Nacional D. Maria II, de 12 a 20 de fevereiro de 2027. Mais informações em www.tndm.pt/pt/programacao/espetaculos/isin-makees.